MaisOpinião - Bernardo Vilas Boas

Tempos de mudança nos CSP exigem participação!

MGFamiliar ® - Thursday, August 04, 2016


Estou de férias! 

E provavelmente o mesmo aconteceu ou vai acontecer nestes meses de Verão com muitos de nós... O Carlos Martins desafiou-me a escrever e ainda bem porque eu tinha algumas coisas que gostava de partilhar, proporcionando-me as férias aquele tempo livre de que nem sempre disponho para o fazer.

Vivemos um período, a nível da saúde  e dos cuidados de saúde primários que eu considero de transição, ou seja, em que se impõem mudanças e em que muito do futuro se está a decidir...

Pela primeira vez, os jovens médicos especialistas de MGF começam a não ter  colocação na região Norte. O DL das USF, 298/2007, tão inovador e atual, vai fazer dez anos e necessita de aperfeiçoamentos urgentes. O DL dos ACeS, 28/2008, nunca foi aplicado na dimensão essencial da “autonomia gestionária”. A contratualização, eixo indispensável da autonomia e da responsabilidade, tal como hoje existe, é desmotivadora e está esgotada.

O que me preocupa é se a maioria de nós está consciente de tudo isto e se está a acompanhar este processo de mudança. Quantos de nós conhecem o plano estratégico e operacional da Coordenação Nacional para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários (CNRCSP) ou o programa das 7x7 medidas da USF-AN.

O crescente número e a qualidade dos jovens médicos especialistas de MGF é uma oportunidade e uma força excelentes para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e para o País. A minha experiência como “orientador” e como “formador” na área das “Equipas e Lideranças” mostra-me isso mesmo. O setor privado já o compreendeu e procura recrutar alguns deles, oferecendo melhores remunerações e exigindo “exclusividade”. Saibamos nós, os mais velhos, ouvi-los e saibam eles usar o seu poder, para em conjunto encontrar os caminhos que permitam manter e acrescentar o seu valor ao SNS (1).

Em relação ao DL das USF, penso que a principal mudança deve ser a alteração dos incentivos financeiros dos enfermeiros e dos secretários clínicos, que devem passar a ser calculados e atribuídos de modo semelhante ao que já acontece com as atividades específicas dos médicos, como fator indispensável e facilitador da coesão e motivação das equipas multiprofissionais.

A autonomia e a gestão de proximidade dos ACeS – que deve incluir mais poder na gestão financeira e da formação, entre outros, tem de evoluir já em 2016 e tem de ser acompanhada de direções executivas competentes,  como condições necessárias para a autonomia e responsabilidade das USF e para a eficiência da administração regional e central.

O que vai ser a contratualização para 2017-2019? Vamos ter princípios que a tornem coerente com o exercício do perfil do médico de família e dos outros profissionais? Vamos ter como foco a saúde e as necessidades das pessoas ou as da administração? Vamos definir um novo modelo e uma nova metodologia a tempo de iniciar a contratualização para 2017, ainda em 2016?

Também me preocupo em saber se as diferentes organizações estão a fazer o que é possível para facilitar, motivar e proporcionar uma vasta reflexão e participação dos profissionais de saúde.

Confio nas lideranças atuais, particularmente naquelas com que estou comprometido – a USF-AN e a FNAM, e, no plano político, no coordenador nacional da reforma para os CSP e na sua equipa.

Aposto e confio de um modo geral nas capacidades de diálogo e de negociação mútuas das organizações que nos representam, geradoras de vastos consensos na saúde, desde que firmemente norteados pelo Serviço Nacional de Saúde.

Mas isso não significa que se tomem as melhores decisões, que as mudanças sigam o melhor rumo e que os profissionais adiram, se identifiquem e as implementem.

É preciso que cada um, revigorado pelas férias, participe, dê opinião, faça propostas de solução, enfim, assuma esta exigência cívica e democrática de participação e de definição das mudanças.

Tempos de mudança nos CSP exigem participação para que sejam encontradas as melhores soluções para o SNS!

Boas férias, bom trabalho e bons tempos livres! 

Por Bernardo Vilas Boas 

 

P.S.: No último curso, um dos grupos de trabalho, usou um exercício prático de aplicação da “metodologia de resolução de problemas”, à questão das mobilidades, a sua grande preocupação, face à provável inevitabilidade de terem de se deslocar para outras regiões. Chegaram a propostas e medidas concretas que podem ser determinantes para que aceitem trabalhar, temporariamente, nas regiões do País que presentemente têm carências bem graves em médicos de família.



Cuidados de Saúde Primários em 2014 – ameaças e/ou oportunidades!?

MGFamiliar ® - Sunday, February 16, 2014

 

Em 2014, a contratualização e a evolução das USF, bem como das outras unidades funcionais, estão a ser influenciadas por vários factores, alguns que constituem oportunidades e outros que constituem ameaças. Depende de nós, profissionais de saúde, nas nossas equipas e nas nossas organizações, intervir, potenciar as oportunidades e, sempre que possível, transformar as ameaças em oportunidades.

Contratualização em 2014, como será?

As alterações no processo de contratualização, surgidas em consequência da nova portaria e da nova metodologia, exigem uma actuação inteligente e fundamentada das partes, de forma a garantir melhores cuidados, focados nas pessoas e nos ganhos em saúde, que são muito mais do que indicadores.

As alterações no número de indicadores e na sua complexidade, bem como na população considerada para efeitos de cálculo (população total versus população vigiada) justificam a procura de equilíbrio na definição das metas, que devem ser, simultaneamente, exigentes e exequíveis, de forma a evitar o estreitamento e o foco exagerado do trabalho dos profissionais nos indicadores.

Temos um sistema de contratualização muito evoluído (por exemplo, quando o comparamos com o dos hospitais) que, no entanto, necessita de consolidação gradual e progressiva, só possível com aprendizagem contínua e baseada em completa transparência, em crescente capacitação das equipas das unidades de saúde, em novos comportamentos e em avaliação com consequências, a todos os níveis da administração pública.

É neste contexto que a USF-AN está a contribuir para que as USF façam e partilhem o seu “trabalho de casa”, tomem a iniciativa na preparação da contratualização com os ACeS, de forma a que sejam respeitados os seus princípios e cumpridos os prazos, previstos para a assinatura das cartas de compromisso, até 31 de Março de 2014.

Foi publicada uma primeira reflexão sobre o anteriormente referido, que vai servir de base ao debate, a realizar no encontro do dia 19, na Ordem dos Médicos, no Porto.

Ainda a este propósito, vale a pena revisitar o balanço e ensinamentos dos anos anteriores:

- “O que é a contratualização?”

- Testemunhos 

- Propostas de melhoria

 

Evolução das USF em 2014, o que vai acontecer?

Segundo o jornal “Tempo Medicina”, de 27 de Janeiro, o Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Saúde (SEAS) fez diversas afirmações na Comissão Parlamentar de Saúde da Assembleia da República, que devem ser analisadas.

“Temos estado já a trabalhar … no sentido de criar um sistema que generalize a atribuição de remuneração variável, por incentivos ou por objectivos, também aos profissionais das UCSP”.

Assim, para o Sr. SEAS, a remuneração associada ao desempenho nas UCSP será uma boa medida para diminuir as diferenças no modelo assistencial entre as UCSP e as USF.

Esta afirmação não pode deixar de ser equacionada no contexto actual, em que existe uma desaceleração e um desinvestimento nas USF (de 2006 a 2011 iniciaram actividade 319 USF, em média 53 por ano; em 2012 iniciaram 38 e em 2013 iniciaram 28), no seu acompanhamento e no cumprimento dos compromissos assumidos – veja-se, por exemplo, o atraso generalizado e de vários anos em relação ao pagamento dos incentivos institucionais.

As UCSP devem, antes de outras medidas, constituir centros de custos, com igualdade de condições de trabalho, de espaço físico e equipamentos, com uma área geográfica, uma carteira de serviços, recursos humanos adequados, um coordenador, contratualização e avaliação.

Fazendo sentido reflectir sobre a aplicação e generalização do princípio de discriminação positiva, não podemos aceitar a equiparação artificial das UCSP e das USF, não podemos aceitar que se ponha em causa um modelo diferenciador, exigente, que pressupõe autonomia e responsabilidade, assente na constituição de uma equipa multiprofissional, sujeita a um compromisso assistencial, contratualização e avaliação.

Uma outra afirmação, segundo a referida notícia do “Tempo Medicina”, é a seguinte:

- É quem trabalha nas referidas unidades funcionais (UCSP) que “está a responder ao essencial da pressão” actualmente existente sobre os cuidados de saúde primários.

Esta afirmação é mesmo assustadora, pela disparidade face à realidade. As USF permitiram atribuição de equipa de saúde a mais 600 mil cidadãos, asseguram intersubstituição na equipa, resposta diária às situações agudas e fazem-no, como é reconhecido no preâmbulo da recente portaria, a par de melhor desempenho, qualidade e eficiência.

Finalmente, ao afirmar que em 2014 “Iremos procurar abrir mais 30 USF de modelo A e passar, pelo menos, mais 16 USF para modelo B…” (quando, há mais do dobro das candidaturas a USF e pelo menos 18 USF têm parecer positivo, aguardando homologação para B desde o ano anterior), está a defraudar totalmente as legítimas expectativas dos profissionais e cidadãos, perpetuando um sistema a duas velocidades, que diz querer ultrapassar.

O que vamos fazer?

Face a esta elucidativa e total ausência de ambição e de vontade política para prosseguir e completar a reforma dos cuidados de saúde primários, o que vamos fazer?

As nossas organizações têm sabido combinar a sua inevitável competição, própria de entidades com características diferentes, com a cooperação, própria de entidades com objectivos comuns. Um bom e duradouro exemplo, com vários anos de confiança e consolidação, é a unidade que a FNAM e o SIM têm sabido construir em torno de questões fundamentais para os médicos.

Há outros exemplos de unidade, como a carta aberta subscrita pela USF-AN, a Ordem dos Enfermeiros e a Ordem dos Médicos, em Março de 2013, intitulada A vida, a saúde e os cidadãos exigem mais e melhores Cuidados de Saúde Primários”.

Ou como a recente posição conjunta da USF-AN, APMGF, FNAM, SIM, OM e Colégio de Especialidade de MGF, em torno da questão dos “incentivos”, luta que teve muitos outros apoios.

É tempo de as diferentes organizações dos profissionais de saúde dos CSP, em convergência com os anseios das populações, construírem objectivos comuns, investindo fortemente nas Unidades de Saúde Familiar, nos Cuidados de Saúde Primários e no Serviço Nacional de Saúde.

Bernardo Vilas Boas, Presidente da Direcção da USF-AN

 

 

Serviço Nacional de Saúde (SNS) – Património de todos!

MGFamiliar ® - Sunday, October 27, 2013

 

Realizou-se o 1º Congresso do Serviço Nacional de Saúde (SNS), nos dias 27 e 28 de Setembro, sob o lema SNS - Património de todos!

Participei, como não podia deixar de ser, por imperativo de cidadania, por considerar vital a sua sustentabilidade e desenvolvimento, e para isso, a criação de uma consciência nacional da riqueza pública, social e económica que ele constitui.

Como tive ocasião de afirmar em pequena entrevista, o SNS é pré-pago por todos os portugueses. E acrescento, não pertence a este, nem a qualquer governo. Está consagrado constitucionalmente, é um avanço civilizacional, que novos e velhos têm de saber defender, conhecendo, discutindo e influenciando o respectivo orçamento e opções.

Este 1º Congresso do SNS foi claramente um primeiro passo, muito importante e indispensável, nessa direcção. Ao mesmo tempo, foi fácil verificar que está por fazer o mais difícil e o mais importante – ganhar e mobilizar para este movimento, os cidadãos que não são profissionais de saúde.

Uma das formas e dos meios de contribuir para esse objectivo é, na minha opinião, a criação de uma rede de Ligas de Amigos, a par das próprias USF, materializando e assumindo um papel activo em relação aos problemas e dificuldades, conhecendo as actividades e serviços das USF, participando nos respectivos Planos de Acção.

USF - uma nova realidade da proximidade e qualidade do SNS

Participei neste congresso, também como Presidente da Direcção da USF-AN, que criou uma parceria com a Fundação do SNS. Não tenho qualquer dúvida que USF e SNS têm sinergias mútuas, abraçam os mesmos valores e princípios e que só podem progredir de mãos dadas.

Nos debates deste congresso surgiram opiniões diferentes, conviveram pessoas com diferentes olhares, de forma aberta e democrática. Foi evidente que existem contradições entre profissionais de saúde, particularmente médicos, de USF e de UCSP.

A propósito da intervenção de uma colega, que se referiu a desigualdades existentes, fiz alguns comentários, que deixo registados:

- Portugal tem um problema antigo de menor investimento e menores recursos nos CSP (Cuidados de Saúde Primários), quando comparados com o nível de cuidados hospitalares;

- Portugal tem, mais do que um problema de falta de médicos de família, um problema de falta de equipas de saúde, que incluem também enfermeiros, secretários clínicos e outros profissionais de saúde;

- Com a Reforma dos CSP e a criação das USF, mais de 600 000 portugueses, que antes não tinham, ganharam uma equipa de saúde, com autonomia e responsabilidade;

- Assim, o problema actual não é a Reforma dos CSP e as USF, o problema é a desaceleração e a subversão de que estão a ser alvo, nos últimos anos, com a consequente falta de oportunidades e de acesso, que travam a generalização desta inovador modelo organizacional.

Os avanços obtidos com as USF, nos indicadores de acesso, de desempenho, de eficiência e de satisfação dos cidadãos têm contribuído decisivamente para que os cidadãos confiem no Serviço Nacional de Saúde e o assumam como seu património.

As USF foram e são um dos factores mais importantes para a concretização da proximidade e qualidade do SNS.

Bernardo Vilas Boas