MaisOpinião - Luiz Miguel Santiago

Guidelines em discussão …primeira volta!

MGFamiliar ® - Sunday, November 09, 2014


Confesso ser daqueles que pensam que a disponibilização de conhecimentos médicos a todos pode ajudar a uma prática mais consequente… Mas também tenho a noção de que tal disponibilização se mal feita, ou bem orientada, pode ser de alguma forma perversa.

A discussão deve iniciar-se pela denominação e pelo sentido que se quer dar a um texto que pretende informar os médicos do que é, dentre a prática publicada, a aplicação mais exata do conhecimento médico quer em diagnóstico, quer em terapêutica.

Se forem “linhas de orientação” têm um peso, de mera indicação sobre o que os investigadores – quer de estudos de eficácia, quer de revisores – descobriram. Mas têm a questão de, em caso de problema com um caso, o médico ter de explicar porque não esteve dentro da “linha” e assim arcar com as consequências.

Se forem “normas de orientação” então o significado, ao menos legal português, é que a prática tem de se conformar por elas e que a qualquer altura um conjunto de avaliadores, poderá entrar por um local de prestação de cuidados médicos e sancionar o seu não cumprimento escrupuloso.

Em qualquer dos casos o que era suposto ser interessante, por permitir aos médicos ter acesso a um conjunto de conhecimentos amalgamado, coerente e condensado, passou a ter  uma conotação não de qualidade e de ciência, mas de imposição e de cumprimento cego.

Vem tudo isto a propósito de Clinical guidelines at stake escrito por Antonio Sitges-Serra, de que hoje aqui inicio a leitura e reflexão prática.

Em tal texto da autoria de um Professor Espanhol Catedrático de Cirurgia em Barcelona, o autor começa por dizer: "Medicine is not a science: it is a cultural Product.E mais adiante refere “However, because medicine, in opposition to science, requires bedside decision making, it cannot rely only on hard data.” Ou seja que a forma como uma sociedade vê, interpreta e valoriza os problemas que alguém identifica, outrem amplifica e de que alguns rapidamente se apropriam para algum tipo de ganho, são o caldo de cultura que leva as sociedades a querer “ter saúde”. E que mesmo que o conjunto axiomático de sinais e sintomas corresponda à mesma entidade, a sua apresentação pode não ser a mesma e a forma como é interpretada, até na sua evolução cronológica pode não ser diferente. E depois há a questão de que a valorização dos sintomas pode ser diferente pelo consulente e de que mesmo que seja pensada uma entidade nem sempre os resultados dos testes que se pedem pode ser consequente: os falsos positivos e os falsos negativos…

Mas voltaremos ao tema.

Luiz Miguel Santiago

MD, Médico de Família na USF Topázio

PhD, FCS da Universidade da Beira Interior





A mamografia em "check down"?

MGFamiliar ® - Sunday, February 23, 2014

 

Saiu este mês “BMJ 2014;348:g1403 doi: 10.1136/bmj.g1403 (Published 11 February 2014” um Editorial que deve ser lido, relido e bem lido pois refere que a mamografia, tal como o PSA, não salva vidas, apenas promove problemas psicológicos, de qualidade de vida. E vai mais longe: para a mama é provável que a palpação, orientando então para a radiologia é que deverá ser o procedimento correcto “o dano (sobrediagnóstico) e os benefícios (redução da mortalidade) não são muito diferentes. O risco e cancro da mama a 20 anos para uma mulher de 50 anos é de 6,1% incluindo 22% de sobrediagnóstico e de 5,0% sem rastreio).

Dá que pensar… Parece que teremos de voltar à palpação mamária como guia orientadora, teremos de ter em conta que a radiografia deve ser lida por mamografistas e teremos de equacionar o que vamos ter de dizer às nossas consulentes…

É bem provável que o Século XXI continue a contradizer muito do que o Século XX andou a fazer quando pensámos que resolveríamos tudo, que os exames iam permitir descobrir tudo, que a prevenção ia resolver tudo e que os medicamentos tratariam tudo.

Assim sendo o que diremos às nossas consulentes? Como nos orientaremos no medo da doença que os pacientes têm e a sociedade (leia-se como se queira!) lhes impinge e como teremos de voltar a ter tempo para detalhadamente observar e examinar fisicamente os e as nossas consulentes?

Boa tempestade cerebral.

Luiz Miguel Santiago

MD, Médico de Família, USF Topázio

PhD, FCS da Universidade da Beira Interior