Nove horas. O médico olha em seu redor e observa a equipa que vai integrar em mais um turno de doze horas no Serviço de Urgência. Não está habituado a esta equipa. A julgar pelas caras cansadas, a noite parece ter sido agitada. Agora até está calmo. Apenas se ouve o som de um monitor sem ninguém por perto. Menos mal.
O médico é interno de MGF. Não está habituado a este ambiente. É a décima urgência que faz e tudo parece tão estranho como no início. Aqui, os exames estão à distância de um “clic”. Agora avalia pessoas que muitas vezes vêm dos CSP. Períodos mais calmos alternam com períodos de stress, com pessoas a chegarem uma atrás da outra.
Doze horas. Chegou o reforço. Ainda bem! Hoje está especialmente caótico. Não há tempo para aprendizagens orientadas. O especialista procura responder a todas as solicitações, mas não está fácil.
Vinte horas. Está quase. Apesar de tudo foi uma experiência valiosa. É bom ter este treino. Será útil em CSP. Nem que seja para dar alguma estaleca. Se pensar bem, são filosofias diferentes. Aqui, se não realizar uma série de exames, não há desculpa. Mesmo que a clínica não o justifique! Pois, há quem diga que a exceção faz a regra.
Finalmente. Três horas de espera para fazer a radiografia do tórax. A utente veio ao Serviço de Urgência por lipotimia. Sente-se bem. Com uma saturação periférica de oxigénio de 93%, realizou-se uma gasometria arterial. Os valores não se enquadraram num perfil dito normal, mas considerando a idade da utente… O colega de medicina interna não ficou tranquilo, apesar de não se identificarem outras alterações relevantes no restante exame físico, hemograma e outros marcadores bioquímicos. Alguma coisa não o deixou tranquilo. Bem, ele tem mais experiência. Os marcadores cardíacos e D-dímeros vieram negativos. Falta a radiografia do tórax e depois poderá ir embora. Hum… se calhar não.
Esta experiência em relato, assim como muitas outras, fazem-me refletir (para além de outras reflexões) sobre o que li no livro “Ser Bom Não Chega”. O cirurgião Atul Gawande reflete sobre diligência, competência e engenho, no contexto da medicina. No caso particular da diligência, destaco a sua importância na prática clínica diária. Atul Gawande define a diligência como “…a necessidade de prestar atenção suficiente ao pormenor, para evitar erros e ultrapassar os obstáculos.” É fácil alguma coisa escapar. Principalmente, quando temos tanta coisa para concretizar na nossa agenda. Mesmo que involuntariamente, é fácil valorizar mais a nossa agenda do que a agenda do utente. Conduzir o consulente no sentido que nos interessa. Também é fácil cair na rotina do “aí vem ele outra vez…” e bloquear a nossa atenção para o pormenor. A diligência não é uma condição menor e assume um papel fundamental no ato clínico em geral e na relação médico-utente em particular. O médico como ser humano, sente, e não pode ser de outra forma. O importante é ter capacidade para reconhecer esses sentimentos e perceber de que forma influenciam a relação com cada pessoa. O crescimento pessoal e profissional alimenta-se de estímulos externos, mas concretiza-se num sentido centrífugo, de dentro para fora.













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