MaisOpinião - Vânia Machado

O primeiro post


MGFamiliar ® - Saturday, October 11, 2014



 

Sou atualmente Pediatra, mãe de três filhos, e dou primazia na minha profissão ao contato mais profundo com as pessoas, dentro das limitações que todos nós conhecemos. Sou apaixonada pela arte do ambulatório e pela arte da escrita. E saber viver é também uma arte.

Foi com muita honra que aceitei o convite do Dr. Carlos Martins para dar o meu contributo no portal de MGFamiliar.

Em jeito de introdução dos meus pensamentos, partilho convosco algumas ideias que transmiti na apresentação do meu primeiro livro:

A vida corre sem darmos conta, sem querer e sem saber somos adultos, enchemos os dias de escolhas, umas mais acertadas do que outras, e o destino o azar ou a sorte encarrega-se dos imprevistos; uns são bons e outros não.

Tudo isso nos marca indelevelmente, mais ou menos, conforme a nossa sensibilidade e as situações concretas.

Consoante a personalidade de cada um, os seres humanos apercebem-se ou não que as vivências acumuladas vão construindo o que são como pessoas; umas são visíveis ao ego, e outras permanecem guardadas em locais de acesso restrito, algumas mesmo de entrada proibida.

Com a maturidade, pode chegar a vontade de parar e fazer balanços.

Muitas vezes, essa capacidade de análise que a idade nos confere é insuficiente, precisamos de uma forte tempestade ou de uma queda desamparada para perceber a necessidade das pausas para compreender se é esse o caminho e apreciar as coisas em vez de seguir em excesso de velocidade pelas rotinas 24 sobre 24 horas, escutar o nosso interior e entender se somos felizes, melhorando então a qualidade de vida emocional.

É inegável que atravessamos um ciclo conturbado no país, um clima de pessimismo que nos contagia e gera um estado de pânico coletivo. Mais grave do que isso na minha opinião é o ritmo frenético com que somos bombardeados com informações, e o excessivo materialismo e consumismo que nos cria necessidades ilusórias na civilização ocidental em que nos inserimos, frustrando-nos por não conseguimos obter tudo o que julgamos querer. Sem darmos conta ficamos enredados nessa teia, aglutinados nesse estilo de vida, o que facilita a rotura psicológica e a entrada no pesadelo da tristeza infinita.

Quando me apercebi que a trovoada era forte, a chuva de pingas grossas me encharcava, e escorreguei no chão molhado, refugiei-me na escrita. Não consegui parar, foram dias e noites seguidas, nos tempos livres, mais noites que dias, uma vontade irreprimível de me entender, baseando-me não só no que vivi e no que vi, mas também inspirada numa criatividade ininterrupta de geração espontânea. Quando dei conta tinha escrito o Microcosmos Humano, em cerca de dois meses.

O meu livro retrata uma figura feminina, mas é uma personagem universal e qualquer um dos leitores do livro se pode identificar com ela, quando se decidir a ter tempo para si próprio, para refletir no sentido dos anos que viveu e no rumo que quer dar aos capítulos que ainda quer viver, dentro das limitadas possibilidades do seu livre arbítrio...

Surgiu em mim a Lídia, uma mulher forte, que se julgava inquebrável. Um dia, resolveu aceitar a sua vulnerabilidade e sentou-se no divã, numa espécie de introspeção.

Reconheceu as feridas escondidas, de algumas grandes ou de muitas pequenas coisas más. Era o passo mais importante para se conseguir levantar e se abrigar da tempestade. Estava num estado permanente de alerta e vivia sem viver, olhos e ouvidos que apenas eram utilizados sensorialmente, circuito pelos dias em piloto automático.

Aos poucos, a Lídia permitiu a si mesma uma fluência psíquica, analisou os motivos.

A profissão de Pediatra seria um deles, curiosamente, apesar de a abraçar com carinho e adorar tratar e cuidar das crianças, mas sua excessiva sensibilidade, em parte intrínseca ao seu caráter, em parte por ter 3 filhos, e o cansaço acumulado, levava a que as imagens de sofrimento infantil extremo e em situações limite se colassem na retina, fazendo-a também sofrer.

Esse era um dos motivos, mas havia outros, da sua intimidade lunar, que não importava expor mas importava sim assimilar.

E enquanto aceitava essas vulnerabilidades, estas iam perdendo força e ela fortalecia-se.

E os olhos começaram a ver, os ouvidos a escutar, numa espécie de epifania que era aquela viagem no divã. Percebeu que a vida valia a pena ser vivida, e não apenas percorrida.

Que apesar de a felicidade extrema ser impossível dada a natureza humana não tolerar o excesso de descarga de neurotransmissores, os altos e baixos faziam a vida saber melhor, e a felicidade dependia, não só das óbvias grandes coisas boas, mas da reserva das pequenas coisas boas que importava descobrir. E que estavam espalhadas por todo o lado.

E o seu espírito abriu-se para o exterior, para além do seu microcosmos familiar, das alegrias que lhe davam os seus filhos, e viu as pessoas que a rodeavam, entendendo que entre as pessoas muito boas e muito más, que eram as exceções, existiam as pessoas simples, como ela própria, e que partilhando com elas experiências e pequenos gestos, estes se transformariam em ondas de energia positiva, gerando uma sucessiva queda de peças de dominó interminável, a solidariedade entre seres humanos, nos seus microcosmos.

Era isso a essência do humanismo. Uma utopia, talvez, mas a vida era feita de sonhos, e não apenas de rotinas.

A felicidade era um estado de plenitude interior em harmonia com a vida.

E era fundamental reconhecer os sinais de alerta para a possibilidade da queda livre na tristeza infinita, mantendo acesa a força de vontade e o instinto de sobrevivência mental, numa permanente e contínua atenção às pequenas coisas boas.

É consensual a certeza que um dia todos vamos partir.

Aceitar a extrema fragilidade da nossa natureza, aprendendo a viver e a lidar também com essa certeza, e olhar os outros e a nós próprios como seres humanos que somos, só nos pode levar a aproveitar o momento presente, sempre, e a acreditar que vale a pena ter esperança em tentarmos construir uma vida melhor para nós e para os outros.

Vânia Mesquita Machado 

 

 

Comments
Luís Monteiro commented on 15-Oct-2014 12:50 PM
A medicina e a escrita são planos que se entrelaçam teimosamente. E a sensibilidade e o tom de esperança neste texto são oásis neste deserto técnico e cinzento. Obrigado pela generosidade na partilha.
Mário Albuquerque commented on 21-Oct-2014 11:12 AM
As sociedades modernas são feitas de indivíduos superespecializados e assim a tradição humanista dos médicos vai decaindo. "Brûle encore, même trop, même mal..." Quem de entre nós leu Marco Aurélio, os outros estóicos, Aristóteles, ao menos a Ética a Nicómaco, S. Tomás - Nihil potest quietare hominis voluntatem nisi bonum universale : só o bem pode satisfazer a mais profunda sede do ser humano -, P. António Vieira, sj, um Kant ou um Hegel, ou uma Yourcenar, e Joyce, Thomas Merton, Flannery O'Connor, Chesterton, C.S. Lewis, Varillon,...,ou os nossos Agostinho da Silva (As aproximações, onde aborda estes temas sobre os quais escreve. Ah!) ou Ruy Belo? Sem isto, que defesas teremos contra as falsas ideias de felicidade que nos desejam vender? Recomendo ainda vivamente a leitura de Christian Bobin. E felicito-a.


Post a Comment




Captcha Image