O «salve-se quem puder» social é um ato tão selvagem como são os chimpanzés africanos; o olhar cego da humanidade perante a intervenção global em questões de saúde pública é igual ao de morcegos que esvoaçam em pleno dia; cito estes mamíferos para evocar as principais fontes de início de um novo ciclo epidémico do vírus Ébola no continente africano, vírus habituado a circular à paisana entre estes animais, quieto e calado, tornando-se agressivo quando lhe dá vontade, e que por motivos desconhecidos voltou a eclodir entre outros mamíferos, os humanos.
Quando a propagação se iniciou nesta primavera, o fio-de-prumo de preocupação por parte dos países ocidentais nivelava-se a par de outras tragédias do terceiro mundo, como a fome e a SIDA: no terreno as ONG, os missionários bons samaritanos do costume; em casa no sofá a compaixão por breves segundos, enquanto as imagens televisivas de cadáveres de seres humanos caídos como tordos vítimas de Ébola desfilavam alinhadas nos blocos noticiários entre as primárias do PS e as inconstitucionalidades governamentais. Noutros países, com outras preocupações políticas de umbigo, a forma de lidar com estes dissabores longínquos era equivalente.
O planeta é uma aldeia global, e por isso, algum dia a ponte aérea intercontinental inevitavelmente transportaria o vírus em boleia clandestina, hospedado num qualquer hospedeiro infetado; e essa cadeia de transmissão não se consegue mais travar.
A infeção expressa em americanos e europeus, despertou as consciências dos líderes mundiais para a gravidade do problema, acionando-se prontamente os planos de contingência, ativadas as comissões de vigilância, emitidas as circulares normativas.
Procedimentos inquestionáveis, objetivando salvaguardar a segurança dos cidadãos e conter a propagação da epidemia.
Timing inquestionavelmente desfasado. Com um célere e massivo investimento financeiro em terapia farmacológica e vacinal talvez já existisse uma solução eficaz para debelar o vírus.
O controlo da epidemia exige isolamento dos doentes, esterilização e equipamento de proteção; em África, continente de águas inquinadas, hospitais de campanha e onde tudo escasseia, a maior sensibilidade do resto do globo e o apoio concreto com medidas higiénico-sanitárias teria contribuído para a estancar em tempo útil.
A doença por vírus Ébola manifesta-se primeiro com sintomas sobreponíveis aos de uma gripe: febre elevada, dores musculares, de cabeça, de garganta.
Depois, o sangue jorra em chafariz por qualquer orifício e esvai os seres humanos; o vírus, ao melhor estilo de jogo de consola, abate ferozmente o sistema imunitário em rajada de metralhadora, e se as defesas se descontrolarem, num corpo debilitado e desidratado, avança veloz e mata por choque hemorrágico. Parece assustador.
Mas não se trata de um jogo de consola. Pois não, e qualquer cidadão adulto e responsável tem obrigação de entender que apesar de a vida não ser um jogo, as leis da sorte e do azar se atravessam constantemente à sua frente e não é por isso que vai deixar de viver, pelo que de nada adianta o medo desproporcionado de contaminação.
A pandemia é improvável pois a transmissão não se faz por gotículas, mas através de líquidos orgânicos. Provavelmente e como ocorreu noutros ciclos epidémicos, a epidemia irá amainar dentro de alguns meses.
O risco para o nosso país é considerado baixo, à semelhança dos outros países europeus.
O que não significa que não surjam doentes. O que não implica a ativação do botão de pânico, mas sim o uso de bom senso por parte de todos.
O que vivemos durante o surto epidémico de gripe A deveria servir de exemplo: a aprendizagem com os próprios erros é uma prova de inteligência. Felizmente o cenário catastrófico de mortalidade não se verificou, mas geraram-se atitudes de alarmismo descalibrado nos meios de comunicação social, no comportamento da sociedade e no modo de agir das entidades responsáveis pela saúde.
Não foi pela utilização desmesurada de álcool-gel que o vírus perdeu virulência.
Muitas das medidas de isolamento dos doentes suspeitos eram aplicadas com critérios clínicos que se sobrepunham a uma infinidade de patologias, e não era logisticamente possível isolá-los, dadas as condições dos serviços de urgência dos hospitais da altura, (e que não mudaram). Assistiam-se a situações que versavam o ridículo: quando um doente era considerado como possível portador de gripe A, os enfermeiros e os médicos vestiam os fatos protetores e retiravam o doente da sala de espera cheia.
Essa situação já ocorreu há poucos dias com um suspeito infetado com Ébola não confirmado, que esteve durante horas triado com cor amarela (gravidade média), a aguardar pacientemente a sua vez junto com outros doentes; felizmente que este vírus não é tão contagioso como o da gripe.
Urge o bom senso por parte da comunicação social, elemento chave para tranquilizar a sociedade, evitando notícias sensacionalistas que já começam a vir ao lume: insinuar que não irão ser acionadas medidas para evitar a propagação em peregrinações como a de 13 de outubro a Fátima (como seria possível em aglomerados populacionais?), plantar jornalistas à porta dos hospitais sempre que surgir um caso suspeito (traduzindo: um doente oriundo de um país com vírus circulante, há menos de 21 dias (período máximo de incubação), e com sintomas (como febre): com a gripe à porta, vão precisar de reforçar a equipa de jornalistas no terreno.
Urge o bom senso por parte das entidades responsáveis pela saúde, investindo mais na informação dos cidadãos, e na organização de circuitos eficazes de circulação dos doentes, não se focando apenas nos hospitais que em última linha irão tratar dos doentes, mas reforçando a vigilância a nível dos cuidados de saúde primários, onde a maioria dos doentes poderão vir a ser sinalizados. É de bom senso também evitar a tentativa de implantação de medidas de biossegurança impraticáveis e fictícias, tendo em conta a realidade física dos serviços de urgência e a chegada muito em breve da época sazonal de gripe.
Urge o bom senso por parte de todos os cidadãos, que devem estar bem informados e agir com normalidade, isto é, lavando bem as mãos com frequência (que não é uma medida de higiene invulgar), mantendo uma alimentação saudável (um forte sistema imunitário é essencial para combater qualquer doença infeciosa) e evitando a deslocação aos serviços de urgência sem motivo (medida de muito bom senso, sempre).
Uma palavra relativamente a crianças mais sensíveis, que como Pediatra já começo a observar nas consultas, assustadas com o vírus, tal como já vi noutras situações empoladas na comunicação social.
Em suma, sensibilidade humana e bom senso em comunidade, nunca serão em excesso.
Vânia Mesquita Machado













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